26 de novembro de 2018



Opinião - Folha de Londrina

O pensar uma nova cultura


Nada destrói mais a natureza do que sua redução à instrumentalização a serviço dos seres humanos


Ouça este conteúdo0:0004:17

Momento de pensar, refletir sobre a crise civilizatória que nos envolvemos. Mas faz-se necessário pensar para além de um cotidiano marcado por formas alienadas, coisificadas e fetichizadas de nossa forma de produzir, consumir e organizar a vida. Precisamos de pistas, trilhas e mapas para construirmos uma nova cultura. Não mais subjugando a condição humana numa relação de desigualdade crescente e nem tão pouco a natureza subserviente às nossas necessidades, ou seja, as necessidades, criadas pelo sistema que nos governa na economia, na política e em nossas mentes.




Preparar passos para uma nova cultura trata-se, antes, em desconstruir as formas de esfacelamento das relações humanas, em compreender a finitude humana e planetária. Entender que fazemos parte de um único planeta de vida e com vida. Entender que somos humanidade, "humos", portanto filhos da Terra que nos acolhe e possibilita a vida. Mas nesse cuidado, não apenas nossa vida humana, mas toda a manifestação de vida existente.

Nada destrói mais a natureza do que o modelo de desenvolvimento cego que pulsa na economia tirânica. A Era do Antropoceno, como os cientistas a definem, agora nos agoniza, precisamos pensar formas de frear e reverter esse processo. O debate, os diálogos numa educação permanente, continuada, crítica e aderente ao novo que se apresenta, pode ser um bom começo. Mas precisamos de mentes abertas de pessoas que levem a sério o pensamento, não como máquina instrumental da lógica que predomina, mas como razão sensível que pensa de forma integral e transformadora as possibilidades futuras.

Neste trajeto, é fundamental refletir sobre a tensão civilizatória que nos encontramos e nos envolvemos. Pensar para abrir janela para com o futuro, que problematize nossa forma de produzir, consumir e organizar a vida. Não cabe tornar a natureza subserviente às nossas necessidades, ou seja, as necessidades criadas pelo sistema que nos governa na economia, na política, em nosso cotidiano e em nossas mentes. Pensar e educar implica, neste momento, em desconstruir as formas de esfacelamento das relações humanas, e compreender a finitude humana e planetária. Entender que somos a natureza que pensa, a natureza que cuida, a natureza ética que nos acolhe e possibilita a vida. E agora não apenas nossa vida humana, mas toda a manifestação de vida existente no planeta, micro e macro, do planeta que é vida e integra a vida visível e invisível que se faz presente em todos os cantos da casa comum.

Nada destrói mais a natureza do que sua redução à instrumentalização a serviço dos seres humanos, como mero instrumento das necessidades humanas, estimuladas pela lógica consumista que está prenhe no sistema que tudo domina e tudo orienta. Esta visão antropocêntrica agora nos agoniza, nos causa um mal-estar, uma revolta e que, diante deste quadro precisamos pensar formas de reverter esse processo. Os debates, os diálogos numa educação permanente, continuada, crítica e aderente ao novo que se apresenta pode ser um bom caminho, um bom começo.

A Carta a Terra escrita com a contribuição de todos os povos, indígenas, camponeses, trabalhadores, intelectuais, tornou-se referência para este momento de travessia da tensão que nos envolvemos. Uma de suas passagens diz: "O ser humano é uma parte da natureza. Todas as outras formas de vida da natureza devem receber o cuidado dos seres humanos, independente de seu valor para as pessoas." Tomando desta passagem podemos observar a responsabilidade planetária que temos se somos seres inteligentes, criativos, raros e especiais, cultivar um novo olhar e o início de um novo fazer para que a cultura alternativa possa de forma convincente se instalar, este é um bom momento para acreditarmos nisso.

Paulo Bassani, sociólogo e professor de Ciências Sociais da UEL 

20 de setembro de 2018

GES


 dia 23 de novembro  

no LABTED - CCH  (sala de projeção)

 universidade Estadual de Londrina



   







18 de setembro de 2018


FOLHA DE LONDRINA -   ESPAÇO ABERTO – Dia 18 de setembro de 2018


Vivemos um tempo de urgência de mudança civilizacional, pois são perturbadores os sinais dos tempos. E é oportuno que a tribo da sensibilidade, expressão cunhada por José Saramago, que designa o conjunto de pessoas que querem pensar e construir um mundo melhor. Que esta tribo, que são muitos, possam pensar e conduzir as coisas para outra direção.
Por um lado pensarmos e fazermos as coisas em curto prazo. Esta é uma demonstração que a condição humana nos coloca como seres co-participes do mundo, apontando para o alerta de que se não fizermos nada poderá ser tarde demais o amanhã. Sem nada fazer, é numa zona de conforto, sensação de impotência, pois sabemos que os governantes e as elites empresariais, não querem e nem entendem que há urgência em mudar. Nesta dimensão compete definirmos ações individuais e conjuntas que irão compor um ciclo de passagem educacional e experimental para a construção e apreensão de uma nova cultura. Este, não será um tempo menor, mas diferente, sugestivo e exemplificador das possibilidades que se abrem diante da alternância de padrões culturais socioprodutivos e dos valores inerentes.
Por outro lado sabemos, mesmo com dificuldades de aceitação e compreensão total, que o agravamento dos problemas gerados, pelo estado atual da arte, serão cada vez maior em volume e em impactos. Num mundo de transformações rápidas, as que se destacam impactam de tal maneira o planeta já desgastado, que chegará o momento de que teremos dificultada qualquer alternativa no chão planetário com o uso de tecnologias criadas pela ciência moderna. Ai estará a busca por outra morada fora do planeta, esta ainda incerta.
As pergunta que se fazem diante deste quadro são as seguintes: Estarão as escolas, as universidades, a educação e ciência em curso, preparadas e capazes de ajudar a construir outro modelo de sociedade?
Estamos investindo esforços para ampliar o mesmo, com os limites que carrega em sua formulação básica, ou estamos investindo nossos esforços intelectuais em imaginar e exercitar, observando as experiências do cotidiano, um futuro civilizacional alternativo, pós capitalista?
Teremos condições de repensar a forma de viver, o modo como vivemos, o modo como organizamos a vida, sendo permanentemente seduzidos, ludibriados e dragados por esta forma hegemônica em vigor, de pensar e viver?
Como podemos formar e ampliarmos a tribo da sensibilidade que, juntos poderão orientar, direcionar e exemplificar, o conjunto de tarefas a serem realizadas para essa travessia civilizacional?
Não podemos permitir nesse percurso que vigorem as "velhas" e nem as "novas" roupagens da corrupção, uma narrativa que nada condiz com a democracia, pois apenas alimentam o domínio dos interesses de segmentos empresariais, nacionais e transnacionais, que bloqueiam todo e qualquer avanço social. Ao que tudo indica não há outro caminho senão o aprofundamento da democracia, marcado por um ciclo de plena participação e conscientização popular.
O desafio está em desconstruir o modo atual de pensar, e em construir dialogando e convivendo com todos os saberes que conhecemos e com os que não conhecemos. Abrir uma janela para o futuro sem saber o todo, sem definirmos o amanhã, tratar esta travessia como aprendizagem, proposta que apresenta o poeta da Amazônia Thiago de Melo que reitera não querer indicar um caminho e sim um novo jeito de caminhar. Seguir um caminho suficientemente seguro que oriente, muito mais o que não fazer. E o que fazer, brotará da inspiração, imaginação que nos caracteriza como seres humanos criativos e cuidadosos.
O pensamento que nos alimenta é de que nem tudo esta perdido, já há problemas em demasia. Temos o direito de imaginar utopias e delas nos ancorarmos. Fazer parte de uma corrente de pensamentos e práticas que conduzam ao amanhã, e, confiar na força do pensamento ético, sério e de suas ações decorrentes.

*PAULO BASSANI é sociólogo e professor da UEL 

17 de agosto de 2018


 Ensaio - Folha de Londrina




Ser eleitor não garante a cidadania. Hoje, eleitor é um "escolhedor", normalmente alienado

Um momento oportuno para pensarmos em alternativas de poder com uma democracia de alto teor e não simplesmente numa alternância de poder, para manter as coisas do jeito que estão. Não vamos aguardar o melhor momento, pois ele é construído hoje, no exercício do cotidiano, configurando-se em cenários que se moldam para revelações de possibilidades futuras. 
Para tanto, o pensar crítico é oportuno, com profundidade, observação e liberdade criativa. Sem isso, o pensar permanece preso, retido a concepções pura e simplesmente ideológicas. Como construções de um saber esquizofrênico, marcado pelos pecados originais de cada traçado ideológico vivido. O pensamento crítico e as utopias residem nas margens desse pensar, navegam pelo aparentemente inconcebível campo das possibilidades que estão nos dizeres e não dizeres, nos experimentos e nas tentativas dos povos ignorados pelo pensamento e modo de produzir e viver hegemônico.

Assim as construções sociais embrionárias caminham, pela beirada da "realidade", e funcionam como algo contra-hegemônico de princípios, valores, ideias e formas invisíveis, porém factíveis, no campo das alternativas da invenção democrática do cotidiano que não cessa.

E nesse quadro, alguns desafios se apresentam: 1) vencer a barreira de uma comunicação torpe. Não basta combater as fake news, é necessário combater a carga ideológica, manipuladora e desconstrutiva das falas dominantes da grande imprensa; 2) estar sempre ao lado da dignidade humana ética, solidária, respeitosa e cuidadosa de todos os seres vivos, inclusive humanos, sem margens de distorção marcada por passados equivocados das "esquerdas" e das "direitas"; 3) ir contra as afrontas científicas e tecnológicas que marcam a ciência moderna de um mundo que separa e não integra, que consome e não repara, de um mundo que impacta e não preserva; 4) posicionar-se contra os pré-conceitos que dificultam as transformações, os diálogos e as aproximações, essenciais para a formação de novas sociabilidades infra e super estruturais. Rompendo estigmas sexuais, de gênero, étnicos e religiosos; 5) entender que o estágio atual democrático é parte de um longo construto, muito distante de ser alcançado, compreendendo e instrumentalizando o longo caminho a percorrer para atingir o teor e intensidade democrática que possibilitem a revelação de nossa condição humana em plenitude; 6)  ser eleitor não garante a cidadania. Hoje, eleitor é um "escolhedor", normalmente alienado. Cidadania é, sobretudo conscientização e participação efetiva que também resulta numa composição representativa. Sem essa condição, a cidadania não se revela.

E por fim, acreditar e vivenciar processos participativos que elevem os compromissos e responsabilidades, éticas, sociais, políticas e culturais, de ser e estar num tempo marcado por mudanças que, se comparadas às anteriores, apresentam-se redesenhadas por sujeitos e processos que são marcas inexequíveis de um experimento social necessário para o salto qualitativo que começa hoje e continua no amanhã, como força desconhecida que nos empodera e nos liberta.

Os desafios estão postos! Não devemos temer o novo alternativo e necessário. Devemos empaticamente participar desta alteridade reveladora que se manifesta numa composição cultural de cidadãos e sujeitos preparados, responsáveis pela edificação de um ciclo histórico com outro rumo. A qual designaremos como uma nova civilização que oportunizará u
m prolongamento da vida planetária com qualidade e superação de determinações impostas pela civilização anterior. 

*PAULO BASSANI é sociólogo e professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina)

  Folha de LOndrina - ESPAÇO ABERTO - AGO. 17, 2018 –pág. 02


10 de agosto de 2018

                                                          Edição 2018 do GEAMA


               OBS: Em breve estara disponível o link para as inscrições